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Música nos Caminhos de Santiago

29 Março 2015 | Domingo

Viseu, Sé Episcopal, 16H00

Giuseppe Verdi – Missa de Requiem

Capella Maiorquina
Ensemble Vocal Pro Musica
Cristiana Oliveira, Soprano
Ana Ferro, Contralto
Sang-Jun Lee, Tenor
Rui Silva, Baixo
José Ferreira Lobo, Direcção

Requiem
G.Verdi

duração cc. 1:30 hora

Verdi e o seu Requiem
Quando Verdi nasceu, numa pequena aldeia, Le Roncole, perto de Busseto, a 9 ou 10 de Outubro de 1813, Beethoven ainda estava vivo e não tinha composto as suas maiores obras. Quando Verdi morreu em 1901, já Schönberg compunha há muito e restariam a Mahler pouco mais de dez anos de vida. Nascido no Império francês Verdi foi registado como Joseph Fortunin François Verdi, cidadão francês! A família mudou-se para Busseto onde Verdi beneficiou da enorme biblioteca jesuíta. Aos vinte e três anos casou com Magherita Barezzi, filha do comerciante Barezzi que protegeu Verdi nos seus anos iniciais de músico. As duas filhas de Verdi morreram enquanto bebés e a mulher veio a morrer de encefalite aos 26 anos em 1840. Estes acontecimentos marcaram com o sinal da tragédia toda a vida de Verdi. Se Verdi tinha tido sucesso em Milão com a composição de Oberto, a ópera “Un giorno di regno”, que compunha enquanto a tragédia se desenrolava à sua volta, foi, compreensivelmente, um fiasco. 
O desespero tomou conta de Verdi mas, felizmente, o empresário de Milão, Merelli, convenceu o compositor a escrever “Nabucco” que tornou Verdi numa celebridade musical em toda a Itália. Conta o próprio Verdi que foi a leitura das palavras do célebre coro “Va Pensiero” que o inspiraram a voltar a compor. Foi esse o coro que, com as conotações patrióticas face ao jugo austríaco sobre a Itália do Norte, tornou Verdi uma celebridade. Um coro que se tornou no hino não oficial de Itália e que ainda hoje todo o bom italiano sabe de cor.
O que se seguiu é conhecido, depois de Nabucco, Verdi passou, como ele próprio conta, dezasseis anos de cadeia, frase que representa em sentido figurado o sentimento de um Verdi escravo da sua obra e do seu sucesso, escrevendo nestes dezasseis anos sucesso atrás de sucesso. Lombardos, Ernani, Macbeth, Trovador, Traviata e o Rigoletto foram compostos neste período. É evidente o salto qualitativo que Verdi deu ao longo destes anos. Verdi é um compositor de uma intuição teatral notável, a sua música, apesar de inicialmente ser simples, de acompanhamentos básicos e de linhas harmónicas pobres, tem uma força dramática enorme. A melodia é perfeita e, sobretudo, Verdi é magistral na escrita para vozes, solistas e coros. Naturalmente, com o tempo, Verdi aperfeiçoa a sua técnica e atinge o clímax, precisamente, com a Traviata e Rigoletto, que depois refinará ainda mais nas suas duas últimas óperas, Otello e Falstaff. O ponto fulcral da escrita de Verdi é a sensibilidade para os pontos de tensão nos libretos, alguns destes eram fraquíssimos, como o do Trovador, superados e sublimados através da música que avança em pinceladas que acrescentam tensão, palpitação e sofreguidão que só terão rival em Wagner num caminho diferente do italiano.
Em 1873 o grande poeta italiano Alessandro Manzoni morreu, Verdi que já anteriormente tinha desenvolvido esforços para compor um “Libera me” para uma missa de Requiem para Rossini, projecto que nunca foi concluído, e ligado por amizade ao grande poeta italiano, resolveu compor uma solene missa de defuntos.
A palavra “Requiem”, significa repouso e resulta das palavras “Dai-lhes senhor o Repouso Eterno” e corresponde ao Próprio e Ordinário da missa católica para os defuntos que ao invés dos cinco números habituais do Hosanna in excelsis! de qualquer missa de Domingo: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei, é composto geralmente de Intróito (Requiem), Kyrie, Gradual, Tracto, Sequência (começada pelo Dies Irae), Ofertório, Sanctus, Agnus Dei, Comunhão, Pie Jesus, Libera Me e In Paradisum, mas depende muitas vezes das escolhas do compositor dos números a musicar e daqueles que seriam apenas entoados pelo celebrante e pela congregação. No caso da missa de Verdi encontramos quatro partes fundamentais que encerram os números supracitados:
Intróito e Kyrie: Requiem e Kyrie eleison (coro, solistas).
Dies irae: Dies irae, Tuba mirum, Mors stupebit (coro, baixo), Liber scriptus (mezzo-soprano, coro), Quid sum miser (soprano, mezzo-soprano, tenor), Rex tremendae majestatis (solistas, coro), Recordare (soprano, mezzo-soprano), Ingemisco (tenor), Confutatis (baixo, coro), Lacrimosa (solistas, coro).
Ofertório (solistas): Domine Jesu Christe, Hostias et preces, Sanctus (coro duplo), Agnus Dei (soprano, mezzo-soprano, coro), Lux aeterna (mezzo-soprano, tenor, baixo.
Libera me (soprano, coro): Libera me, Dies irae, Requiem aeternam, Libera me.
A música é inspirada e pujante, nomeadamente utilizando fanfarras e o uso de percussão extremamente vigorosa que marca com as pancadas do destino os momentos mais dramáticos da obra. Já foi considerada uma espécie de ópera sacra, é evidente que Verdi utiliza os seus profundos conhecimentos expressivos, que retirou da experiência da ópera, para realizar uma obra marcante, impressionante para o público e extremamente dramática e revoltada contra a morte, quase um apelo à imortalidade. Verdi não exibe uma ópera, antes pelo contrário, a sua visão pessoal do Requiem é diferente de todas as que encontramos desde os tempos dos primeiros exemplos de missas de defuntos postas em música, desde o extraordinário Requiem de Ockeghem em polifonia composto no século quinze até ao Requiem de Fauré composto posteriormente, que é extremamente sereno perante a reflexão da morte. 
De realçar o Dies Irae, Dia de Cólera, Dia do Juízo Final, com uma tremenda força que surge repetidamente ao longo da obra e que lhe dá uma unidade singular. O Sanctus é extremamente complexo iniciado pelos metais e que se desenvolve numa fuga a oito partes. Fica ainda a curiosidade do Lacrimosa ter sido escrito a partir de um dueto da ópera D. Carlos.


i. requiem e kyrie
coro
Requiem aeternam dona eis, Domine;
et lux perpetua luceat eis.
Te decet hymnus, Deus, in Sion,
et tibi reddetur votum in Jerusalem.
Exaudi orationem meam:
ad te omnis caro veniet. 
quarteto e coro
Kyrie eleison.
Christe eleison.
Kyrie eleison.

ii. sequência 
coro
Dies irae, dies illa,
solvet saeclum in favilla,
teste David cum Sibylla.
Quantus tremor est futurus,
quando judex est venturus,
cuncta stricte discussurus!
Tuba mirum spargens sonum,
per sepulcra regionem,
coget omnes ante thronum.
baixo
Mors stupebit et natura,
cum resurget creatura,
judicanti responsura.
mezzo-soprano e coro
Liber scriptus proferetur,
in quo totum continetur,
unde mundus judicetur.
Judex ergo cum sedebit,
quidquid latet apparebit:
nil inultum remanebit.
Dies irae, dies illa,
solvet saeclum in favilla,
teste David cum Sibylla.
soprano, mezzo-
-soprano e tenor: 
Quid sum miser tunc dicturus?
Quem patronum rogaturus,
cum vix justus sit securus?
solo quarteto e coro
Rex tremendae majestatis,
qui salvandos salvas gratis:
salva me, fons pietas.
soprano e mezzo-soprano
Recordare, Jesu pie,
quod sum causa tuae viae:
ne me perdas illa die.
Quaerens me, sedisti lassus;
redemisti crucem pacem:
tantus labor non sit causas.
Juste judex ultionis:
donum fac remissionis
ante diem rationis.
tenor
Ingemisco tamquam reus,
culpa rubet vultus meus;
supplicanti parce, Deus.
Qui Mariam absolvisti,
et latronem exaudisti,
mihi quoque spem dedisti.
Preces meae non sunt digne,
sed tu, bonus, fac benigne,
ne perenni cremer igne.
Inter oves locum praesta,
et ab haedis me sequestra,
statuens in parte dextra.
baixo e coro
Confutatis maledictis,
flammis acribus addictis,
voca me cum benedictis.
Oro supplex et acclinis,
cor contritum quasi cinis:
gere curam mei finis.
coro:
Dies irae, dies illa,
solvet saeclum in favilla,
teste David cum Sibylla.
Solo Quarteto e Coro: 
Lacrymosa dies illa,
qua resurget ex favilla,
judicandus homo reus.
Huic ergo parce, Deus.
Pie Jesu Domine:
dona eis requiem.
Amen.

iii. offertorio 
quarteto:
Domine Jesu Christe, Rex gloriae:
libera animas omnium fidelum
defunctorum de poenis inferni
et profondo lacu; libera eas de ore leonis; 
ne absorbeat eas tartarus,
ne cadant in obscurum. 
Sed signifer sanctus Michael
repraesentet eas in lucem sanctam. 
Quam olim Abrahae promisisti et semini ejus. 
Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus. 
Tu suscipe pro animabus illis, quarum hodie memoriam facimus. 
Fac eas, Domine, de morte transire ad vitam, 
quam olim Abrahae promisisti et semini ejus.
Libera animas omnium fidelum defunctorum de poenis inferni; 
fac eas de morte transire ad vitam.

iv. sanctus 
coro duplo
Sanctus, sanctus, sanctus, Dominus Deus Sabaoth. 
Pleni sunt coeli et terra gloria tua. 
Hosanna in excelsis!
Benedictus qui venit in nomini Domini. 
Hosanna in excelsis!
v. agnus dei
soprano, mezzo-soprano e coro
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis requiem.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona eis requiem sempiternam.

vi. lux aeterna 
mezzo-soprano, tenor e baixo
Lux aeterna luceat eis, Domine, 
cum sanctis tuis in aeternam; quia pius es.
Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis, 
cum sanctis tuis in aeternam; quia pius es.

vii. libera me 
soprano e coro: 
Libera me, Domine, de morte aeterna in die illa tremenda; 
quando coeli movendi sunt et terra: 
dum veneris judicare saeclum per ignem.
Tremens factus sum ego et timeo, dum discussio venerit atque ventura irae, quando coeli movendi sunt et terra.
Dies irae, dies illa calamitatis et miseriae; dies magna et amara valde.
Requiem aeternam, dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.
Libera me, Domine, de morte aeterna in die illa tremenda.
Libera me, Domine, quando coeli movendi sunt et terra; 
dum veneris judicare saeclum per ignem.
Libera me, Domine, de morte aeterna in die illa tremenda.

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