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Música nos Caminhos de Santiago – Guimarães

20 Março 2015 | Sexta-Feira

Igreja de São Francisco, 21H30

Modest Petrovich Mussorgsky – Uma Noite no Monte Calvo
Gustav Mahler – Adagietto
Gustav Mahler – Canções de um Viandante
Cesar Franck – Redenção, Poema Sinfónico

Luis Rodrigues, Barítono
Nuno Côrte-Real, Direcção

 

Uma noite no Monte Calvo
M.Mussorgsky

duração cc. 13 minutos

Este é um concerto em que a palavra se alia à música, em obras inspiradas de compositores místicos.
Começa o concerto por “Uma Noite no Monte Calvo”, uma obra de juventude do atormentado e aristocrático Modest Mussorgsky, nascido em 1839, militar alcoólico, que veio a falecer em 1881. Filho de uma professora de piano era conhecido nos círculos musicais por ser extremamente dotado para o piano, relato que nos foi deixado por Borodin (n. 1833) que conheceu Mussorgsky quando este contava dezassete anos. Sendo amigo de Balakirev e César Kui que também era oficial, Mussorgski era, provavelmente, o mais original, mas também o mais desordenado membro do grupo dos cinco do qual ainda faziam parte o citado Borodin e o mais organizado Rimsky-Korsakov. Todos estes compositores saíram de círculos exteriores ao ensino formal dos Conservatórios de Moscovo e de S. Petersburgo, onde pontificava Tchaikovsky.
Este “Noite no Monte Calvo” refere-se a uma noite de Sabbath passado numa montanha desolada em que bruxas dançam freneticamente, cantam louvores a satã e este lança obscenidades numa espécie de oração maléfica. Passa-se numa noite de S. João, 23 de Junho no calendário russo, e composta entre 12 de Junho e o próprio dia 23 de Junho de 1867. É um dos primeiros poemas sinfónicos do repertório russo. O seu lado selvagem e muito original levou a que não fosse estreada em vida de Mussorgsky, sendo a versão mais conhecida a realizada por Rimsky-Korsakov que adocicou a versão original.

Adaggieto da quinta sinfonia
G. Malher

duração cc. 10 minutos

O quarto andamento da quinta Sinfonia de Gustav Mahler, nascido em 1860 e falecido em 1911, é, provavelmente, a sua obra mais conhecida, tendo servido de música para Morte em Veneza e usada frequentemente em cerimónias fúnebres de personagens célebres é, no entanto, um poema de amor, como se depreende pelo poema que Mahler escreveu para acompanhar este andamento:
“Wie ich dich liebe, Du meine Sonne,
ich kann mit Worten Dir’s nicht sagen.
Nur meine Sehnsucht kann ich Dir klagen und meine Liebe.”
“Ah como eu te amo, a ti meu Sol,
Por palavras não te consigo dizer.
Apenas o meu anseio eu lamento, bem como o meu amor.”
Composição em Fá Maior, orquestrada para cordas e harpa, reflecte uma profunda sensibilidade, sendo um lied muito lento, como Mahler escreve na sua partitura. Apenas cento e três compassos de beleza pura para dez minutos de música.


Canções para um Viandante
G. Mahler

duração cc. 18 minutos

Do mesmo compositor seguem-se as Canções do Viandante compostas entre 1883 e 1885 para canto e piano e orquestradas uma década depois, com poemas do próprio Mahler, reflectem o amor não correspondido por Johanna Richter, da qual Mahler descreve os olhos nas últimas canções. A inspiração é semelhante à da Viagem de Inverno de Schubert.
Mahler utilizou este material para compor a sua primeira sinfonia, nomeadamente as duas últimas canções.

 

Lieder Eines Fahrenden Gesellen
i
Wenn mein Schatz Hochzeit macht,
Fröhliche Hochzeit macht,
Hab’ich meinem traurigen Tag!
Geh’ich in mein Kämmerlein,
Dunkles Kärmmerlein!
Wein’, wein’ um meinen Schatz,
Um meinen lieben Schatz!
Blümlein blau! Blümlein blau!
Verdorre nicht! Verdorre nicht!
Vôglein süss! Võglein süss!
Du singst auf grüner Heide!
Ach! wie ist die Welt so schön!
Ziküth! Ziküth!
Singet nicht! Blühet nicht!
Lenz ist ja vorbei!
Alles Singen ist nun aus!
Des Abends, wenn ich schlafen geh’,
Denk’ich an mein Leide!
An mein Leide! 

ii
Ging heut’Morgen über’s Feld,
Tau noch auf den Grasern hing,
Sprach zu mir der lust’ge Fink:
«Ei, du! Gelt?
Guten Morgen! Ei, Gelt? Du!
Wird’s nicht eine schône Welt?
Zink! Zink! Schôn und flinkl
Wie mir doch die Welt gefällt»
Auch die Glockenblurm’ am Feld
Hat mir lustig, guter Ding’,
Mit den Glockchen, klinge, kling,
Ihren Morgengruss geschelit:
«Wird’s nicht eine schône Welt?
Kling! Kling! Schônes Ding!
Wie mir doch die Welt gefällt
Heiah!
Und da fing im Sonnenschein
Gleich die Welt zu fulkeln an;
Alles, Alles, Ton und Farbe gewann!
Im Sonnenschein!
Blum’und Vogel, gross und klein!
«Guten Tag! Guten Tag!
Ist’s nicht eine schône Wdt?
Ei, du! Gelt? Schône Welt!
Nun fängt auch mein Glück wohl an?!
Nein! Nein! Das ich mein’,
Mir nimmer, nimmer blühen kann! 

iii
Ich hab’ein glühend Messer,
Ein Messer in meiner Brust,
Oh weh! O weh!
Das schneidt so tief
In jede Freud’und jede Lust,
So tief! so tief!
Es schneid’t so weh und tiet!
Ach, wes ist das für ein boser Gast!
Nimmer hält er Ruh’,
Nimmer hält er Rast!
Nicht bei Tag,
Nicht bei Nacht, wenn ich schlifl
O weh!
Wenn ich in den Himmel seh’,
Seh’ ich zwei bleue Augen steh’n!
O weh!
Wenn ich im gelben Felde geh’,
Seh’ich von fern das blonde
Im Winde weh’n! O weh!
Wenn ich aus dem Traum auffahr’
Und hôre klingen ihr silbern Lachen,
O weh! O weh!
Ich woll’t ich läg’auf der schwarzen Bahr’,
Konnt’nimmer, nimmer die Augen aufmachen! 

iv
Die zwei blauen Augen von
meinem Schatz,
Die haben mich in die weite Welt geschickt.
Da musst’ich Abschied nehmen
Von allerliebsten Platz!
O Augen blau, warum habt ihr mich angeblickt?!
Nun hab’ich ewig Leid und Grämen!
Ich bin ausgegangen in stiller Nacht,
Wohl über die dunkle Heide.
Hat mir niemand Ade gesagt, Ade!
Mein Gesell’war Lieb’ und Leide!
Auf der Strasse steht ein Lindenbaum,
Da hab’ich zum erstem Mal im Schlaf geruht!
Unter dem Lindenbaum,
Der hat seine Blüten über mich geschneit.
Da wusst’ich nicht, wie das Leben tut,
War alles, alles, alles wieder gut!
Ach, alles wieder gut!
Alles! Alles! Lieb und Leid,
Und Welt und Traum! 

Tradução para Português:
Canções de um viandante
i
Quando o meu tesouro se casar
E tiver alegres bodas,
O dia para mim é triste!
Vou para o meu quartinho
Quarto pequeno e escuro!
Choro! Choro! Pela minha amada,
Pelo meu tesouro de amor!
Florzinha azul,
Não seques!
Doce passarinho,
Tu cantas num verde prado!
Oh! Como o mundo é belo!
Choro! Choro!
Não cantem! Não floresçam!
A Primavera já passou!
Já não é tempo de cantar!
À noite quando vou dormir,
Penso na minha dor
Penso no meu desgosto! 

ii
Passei esta manhã pelos campos,
Ainda havia orvalho na erva.
Disse-me o tentilhão:
“OIá! Como estás? Bela manhã não é verdade?
O mundo não está a tornar-se belo? Belo e vivo!
Como me agrada o mundo! Ei-la! Também as flores-campainhas do campo
Estiveram a anunciar coisas alegres
com o pequeno sino,
Ding, ding, ding, ding,
Ao dar os bons-dias:
“O mundo não está a tornar-se belo?
Mundo belo! Ding, ding, ding, ding! Coisa linda!
Como me agrada o mundo!” Ei-la!
Ali começou sob os raios do sol
o mundo a brilhar.
Tudo, tudo ganhou sons e cor
Sob o brilho do sol,
Flores e aves, grandes e pequenas!
Bom-dia! Bom-dia!
O mundo não é belo?
E tu, que dizes? Não é verdade?
O mundo é belo!
Agora talvez comece também a minha felicidade!
Não! Não! Aquilo em que penso
Nunca, nunca poderá florescer para mim! 

iii
Tenho uma faca em brasa,
Uma faca no meu peito,
Ai de mim!
Ela enterra-se tão profundamente
Em toda a alegria, em todo o prazer,
Tão fundo, Tão fundo!
Oh! Como é um hóspede cruel!
Nunca sossega, nunca pára!
Nem de dia nem de noite, quando eu durmo!
Ai de mim!
Quando olho para o céu,
Vejo dois olhos azuis!
Ai de mim!
Quando atravesso o campo dourado,
Vejo, ao longe, o cabelo loiro a esvoaçar ao vento!
Ai de mim!
Quando acordo do sonho
E oiço o tinir do seu riso prateado,
Ai de mim!
Desejo estar estendido no caixão negro
E nunca, nunca mais abrir os olhos! 
iv
Os dois olhos azuis do meu tesouro
Mandaram-me pelo mundo fora.
Tenho de me despedir destes lugares queridos!
Ó olhos azuis! Porque olhastes para mim?
Assim eternamente não terei senão dor e sofrimento!
Parti para a noite serena,
Na noite serena atravessei o prado adormecido.
Ninguém me disse adeus! Adeus!
Os meus companheiros eram o amor e a dor.
À beira do caminho estava uma tília
Debaixo dela descansei pela primeira vez e adormeci.
Debaixo da tília
Que me cobriu com o manto dos seus botões em flor.
Ali esqueci o tormento da vida.
Tudo ficou novamente claro,
Tudo o amor e o sofrimento,
O mundo e o sonho.

Traduções de Maria do Carmo Hatton 


Redenção, poema Sinfónico
César Franck

duração cc. 14 minutos

Baseado na cantata poética 
sob o mesmo título.

César Franck, nascido em 1822 e falecido em 1890.
Tocado pelos eventos da Guerra Franco Prussiana de 1870/71, compôs este poema sinfónico em cerca de um ano Segundo um texto de Edouard Blau (1836–1906). A estreia teve lugar em 10 de Abril de 1873 no Teatro “Odéon” e teve muito pouco sucesso. A versão original foi transformada por Franck no ‘Morceau symphonique’ ou “pedaço sinfónico” é esta a versão e não a “cantata Poética” original que escutaremos hoje. A obra contém momentos de grande força expressiva de carácter místico e religiosidade, característica muito marcada no católico organista que foi César Franck, e apela ao renascimento e redenção de uma França, então de joelhos, vergada por uma Prússia invencível.

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